Sobre o projeto

O atual projeto de pesquisa intitulado “Freud e a ciência da literatura: interdisciplinaridade na fundamentação teórico-conceitual da psicanálise” (Prociência 2021) decorre da minha trajetória como docente e pesquisadora no Instituto de Psicologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

A remissão de Freud à literatura data da própria fundação da psicanálise com a publicação da obra maior A interpretação dos sonhos (Die Traumdeutung) em 1900, na qual fundamenta o complexo de Édipo, complexo nuclear das neuroses, ao recorrer à tragédia sofocliana Édipo rei, na qual incesto e parricídio constituem o eixo em torno do qual orbita a falta trágico (hamartia) que sela o destino do herói. Em relação ao recurso freudiano à literatura na fundamentação teórico-conceitual da psicanálise – que caracteriza um procedimento interdisciplinar avant la lettre -, é possível identificar pelo menos duas formas de articular os campos da psicanálise e o da literatura - de resto, heterogêneos. Estas são, de uma parte, o recurso à literatura como modo de formalização da teoria da clínica psicanalítica; de outra, a título de psicanálise aplicada [1]. identifica duas vertentes, que o autor nomeia como sendo aditiva e extrativa, respectivamente; considera que a primeira atribui ou ainda acrescenta novos sentidos ao texto literário, e a segunda visa resgatar do texto literário aquilo que interessa aos propósitos da teorização psicanalítica [2].

Esta última proposição faz ecoar a formulação de Freud [3] acerca da diferença entre o método psicanalítico e o método catártico proposto por Josef Breuer. De acordo com Freud, a técnica sugestiva – a contrapartida do método catártico - opera através da sugestão (hipnótica ou não); isto é, acrescenta algo – a própria sugestão – de modo a impedir a representação (Vorstellung) patogênica de se expressar. Já o método psicanalítico, através da regra fundamental (Grundregel) da associação livre, visa extrair a verdade cifrada no sintoma neurótico, ocupando-se da sua gênese ou ainda da etiologia da doença neurótica. Para tanto, Freud propõe uma homologia entre a técnica da pintura, via di porre – que acrescenta pigmento à tela em branco – com a sugestão, ao passo que a psicanálise opera per via di levare, como o escultor que extrai a figura da matéria bruta. Esta consideração entre pintura e escultura, que Freud atribui equivocadamente ao artista florentino Leonardo da Vinci, foi proposta pelo escultor e pintor Michelangelo Buonarotti, também florentino.

No que diz respeito ao projeto de pesquisa “Freud e a ciência as literatura: interdisciplinaridade na fundamentação teórico-conceitual da psicanálise”, a investigação a que nos propusemos trilha a vereda aberta por Freud, articulando os campos da psicanálise e da literatura por uma via que não seja a da aplicação dos conceitos e noções de uma disciplina sobre a outra – isto é, não se trata de psicanálise aplicada à literatura, ou vice-versa -, uma vez que a própria teoria psicanalítica não se aplica à clínica, mas dela retira os seus fundamentos e a ela retorna para se colocar à prova. É em relação a esse movimento de vai-e-vem não simétrico que uma articulação profícua entre psicanálise e literatura poderá se estabelecer. O recurso de Freud e também de Lacan à literatura não caracteriza um mero expediente ilustrativo, menos ainda uma referência erudita. Antes, este recurso permitiu, tanto a Sigmund Freud como a Jacques Lacan, extrair da literatura – per via di levare – determinados elementos que constituem o cerne da respectiva obra literária, através dos quais fundamentaram a sua teorização da clínica.

Ingrid Vorsatz - Coordenadora do projeto

Psicanalista. Doutora em Teoria Psicanalítica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Professora de Instituto de Psicologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
Autora de Antígona e a ética trágica da psicanálise (Zahar/FAPERJ, 2013). Livro contemplado com o Prêmio Jabuti 2014 na categoria Psicologia e Psicanálise.

Link para CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/0210308638523119

  1. Esta é a proposição de Flavia Trocoli. Cf. Literatura e psicanálise: de uma relação que não fosse de aplicação (Apresentação). In Terceira margem. Rio de Janeiro, número 26, p.11-16, jan-jun/2012.
  2. De acordo com a hipótese de Villari (2002), apresentada na publicação Literatura e psicanálise. Ernesto Sábato e a melancolia.
  3. “Sobre a psicoterapia” (Über Psychotherapie), 1905[1904].

10/12/2024 00:00