Psicanálise e literatura, uma conexão moebiana

Desde o seu nascedouro, a vocação da psicanálise é transdisciplinar, conforme atestam inequivocamente as diversas referências presentes na obra freudiana, sobretudo literárias. As considerações de Sigmund Freud [1] em defesa da laicidade da clínica psicanalítica recomendam o estudo da história da cultura, da mitologia, da psicologia da religião e da ciência da literatura (Literaturwissenschaft) ao psicanalista em formação, asseverando que a formação médica - ou ainda outra formação acadêmica especializada – é dispensável para a prática da psicanálise. Antes, nesse ensaio sobre o criador da psicanálise destaca a autonomia da psicanálise em relação a medicina, afirmando que a psicanálise não é uma especialidade médica e tampouco poderia ser considerada a título de psicologia médica. Confessa o seu temor de que a psicanálise viesse a se tornar uma espécie de apêndice menor da psiquiatria, ou ainda uma mera terapêutica subsidiária da medicina, sustentando que a psicanálise é a ciência do inconsciente anímico ou psíquico (seelisch).

A articulação interdisciplinar avant la lettre empreendida por Freud entre psicanálise e literatura, assim como com a poesia, está presente na própria fundamentação teórico-conceitual do campo psicanalítico, cujo paradigma é a proposição do complexo de Édipo enquanto complexo nuclear das neuroses e da constituição do sujeito. Freud fundamenta a universalidade de seu achado clínico na tragédia Édipo rei, de Sófocles (430 a. C.), bem como através de sua auto-análise. Em uma carta [2] ao então amigo e também médico alemão Wilhelm Fliess, afirma que o complexo de Édipo é um evento universal da infância, assegurando ao relevante achado clínico o indispensável estatuto de universalidade exigido pela ciência.

Em outra carta [3] destinada ao amigo, Freud afirma que Shakespeare tinha razão em justapor ficção e loucura (fine frenzy), uma vez que, de acordo com Freud, o mecanismo da ficção é idêntico ao das fantasias histéricas.

A primeira menção a uma obra literária é encontrada também em uma carta a Wilhelm Fliess, na qual Freud menciona a obra Die Richterin (“A juíza”), a propósito do romance familiar engendrado pela neurose.

Já a primeira incursão freudiana a título de análise de uma obra literária como um todo diz respeito a novela Gradiva, de Wilhelm Jensen; mais especificamente, destaca o trabalho do Dichter, o poeta/escritor de ficção. Em sua análise de determinados elementos presentes nessa novela, Freud afirma que “A descrição da mente [Seele] humana é, na realidade, seu campo mais legítimo; desde tempos imemoriais ele [o Dichter] tem sido um precursor da ciência e, portanto, também da psicologia científica” [4]. Assim, Freud assinala o improvável parentesco entre o ofício do poeta ou ainda do homem de letras e aquele do psicanalista, afirmando, surpreendentemente, que a criação ficcional concebida pelo primeiro precede os achados clínicos do segundo.

Em sua obra seminal A interpretação de sonhos (1900), Freud efetua a primeira análise de um personagem da literatura. identificando no herói shakespeariano Hamlet o desejo incestuoso e parricida que constitui o núcleo do complexo de Édipo. De acordo com a análise freudiana, o príncipe da Dinamarca se encontraria impedido de matar Claudius, o assassino de seu pai que tomou o seu lugar junto à rainha Gertrudes, sua mãe, pois estaria inconscientemente identificado a este último. Desde esta primeira referência fundamental às tragédias Édipo rei (430 a.C.), de Sófocles, e Hamlet, de Shakespeare (1601), o recurso de Freud aos poetas/escritores de ficção não caracteriza um mero expediente ilustrativo; antes, diz respeito a fundamentação da teoria da clínica psicanalítica junto aos clássicos da literatura ocidental.

Por fim – mas não menos importante - cabe lembrar a conhecida carta de Freud ao escritor e também médico vienense Arthur Schnitzler por ocasião de seu sexagésimo aniversário [5]. Nesta breve carta, enviada a título de felicitações, Freud revela a sua reserva em se aproximar de seu contemporâneo, confessando o seu temor em conhecer o seu duplo (Doppelgänger), afirmando que “(...) sempre que me aprofundo em suas belas criações, creio encontrar sob a superfície poética, as mesmas convicções, interesses e conclusões que reconheço como meus próprios.”

Schnitzler, por sua vez, aludindo à carta de Freud em uma entrevista concedida no ano de 1927, afirmou que “na literatura, percorro a mesma estrada sobre a qual Freud avança com uma temeridade surpreendente na ciência. Ambos, o poeta e o psicanalista, olhamos através da janela da alma” [6]. Talvez fosse mais apropriado dizer “entrever, divisar”, pois a janela da alma (Seele) é apenas um enquadre, a moldura através da qual algo se re-vela, ou seja, é indicado por intermédio de seu próprio velamento. Essa revelação porta a marca do assombro (Unheimlichkeit), do estranho que brota no interior do mais íntimo, fazendo do poeta/escritor de ficção (Dichter) o duplo não especular do psicanalista. Trata-se, portanto, de uma relação dessimétrica, ao revés da reciprocidade ou do espelhamento, marcada pelo caráter moebiano de “ex-timidade”, consoante a própria dimensão inconsciente, conforme o neologismo cunhado por Jacques Lacan.

  1. “A questão da análise leiga” (Die Frage der Laienanalyse, 1926).
  2. Carta de 15 de outubro de 1897.
  3. Trata-se do Rascunho N, um apêndice à carta datada de 25 de maio de 1897.
  4. “O delírio e os sonhos na ‘Gradiva’ de Jensen” (Freud, 1907/1977, ESB, p. 50).
  5. Datada de 14 de maio de 1922.
  6. Conforme citado por Noemi Moritz Kon, na publicação intitulada Freud e seu duplo (2014).

Literatura, Psicanálise

22/01/2026 00:00